eles virão buscar-vos brevemente...
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
uma noite sonhei III - "futebol". 14/11/2011
3ªa noite (5/11/2011)- assisto a um jogo de futebol de crianças. uma das que joga é uma rapariga de cerca de 7 anos que tem o cabelo louro mas muito encaracolado. não sou o treinador, mas estou junto dos miúdos substitutos que estão de fora e do treinador, mas estranhamente atrás de uma das balizas e não num banco de suplentes. eles estão calados, mas eu tento incentivar os que estão a jogar e a levar uma tareia no jogo. pedem-me que não faça tanto barulho. no final do jogo vão-se embora. anoitece. eu fico no campo fora das 4 linhas junto a um banco. ficam lá três guarda-chuvas. não se sabe de quem são e tenta-se descobrir. um deles tem o nome de alguém escrito no tecido. alguém pega em dois. fico com o terceiro e vou à procura do dono, perguntando, já dentro de um edifício, perto dos balneários, às pessoas que lá estão, provavelmente familiares dos jogadores.
uma noite sonhei II - "o camião de tomates gigantes" 14/11/2011
2ª noite (4/11/2011) - um camião dirige-se para mim numa estrada poeirenta, no meio do mato. desvia-se de mim e tem um acidente, virando-se de lado. é um camião de caixa aberta levando tomates gigantes atrás. virado de lado, consigo ver por baixo do camião. os tomates largam uma especie de raízes para baixo do camião, que têm bolos esverdeados. uns insectos grandes com ar assustador consomem estes bolbos verdes. afasto-me até uma ribeira que corre ao lado. subitamente, ondas de água chegam de vários lados, parecendo os tsunamis da ásia. as pessoas assustam-se e começam a fugir. estou num sítio onde estranhamente, por não ser muito alto, as ondas não me chegam, mas sinto-me seguro, nunca duvidando. a dona lurdes, sogra da minha irmã, tem um bebé que é levado pela corrente. ela grita. os outros estão afastados. logo que me percebo do que aconteceu começo a correr, saltando pela margem até chegar ao bebé, que puxo da água. imediatamente depois de o salvar começo a chorar como nunca.
uma noite sonhei I - "mar morto". 14/11/2011
tenho tentado apontar os meus sonhos. alguns estão mais definidos que outros. comecei a fazê-lo este mês e às vezes quando não tenho paciência para os descrever imediatamente perco pormenores. este é o primeiro, que tive há onze dias atrás no dia 3.
1ª noite - ando até chegar a uma espécie de praia. estou acompanhado mas não posso precisar por quantos e quem. não há praticamente ondas. ao aproximar-me da beira da água baixo-me e apanho algo do chão, uma mão cheia de sal. é o mar morto. entro na água e ando. tenho algo ao colo, uma criança talvez. continuo a avançar pela água a dentro, o céu fica nublado, há agora imensa gente na água à minha volta. avanço, mas a água fica sempre pelo meu peito. começam algumas ondas. parece que se aproxima uma tempestade.
1ª noite - ando até chegar a uma espécie de praia. estou acompanhado mas não posso precisar por quantos e quem. não há praticamente ondas. ao aproximar-me da beira da água baixo-me e apanho algo do chão, uma mão cheia de sal. é o mar morto. entro na água e ando. tenho algo ao colo, uma criança talvez. continuo a avançar pela água a dentro, o céu fica nublado, há agora imensa gente na água à minha volta. avanço, mas a água fica sempre pelo meu peito. começam algumas ondas. parece que se aproxima uma tempestade.
terça-feira, 5 de julho de 2011
naquele dia futuro
Naquele dia futuro em que apenas nuvens cobrem o céu
respiro uma flecha de sol
e já não sinto o cinto
que me amassa o peito, despedaça, estilhaça
mas hoje me estrangula
de amar para além da gula
se em nós vejo para além do agora
quando a tua ânsia demora
e outros olhos de fogo queimam os meus.
Que a maravilha do momento por vir
me leve então em asas de falcão
aos céus de ouro explosivo
que fique apenas meio-vivo
uma parte lá, sem pressa de cair.
E cego me encontre esse desejo
se agora que mal vejo
é com certeza mais romance
que espero no fim do romance
respiro uma flecha de sol
e já não sinto o cinto
que me amassa o peito, despedaça, estilhaça
mas hoje me estrangula
de amar para além da gula
se em nós vejo para além do agora
quando a tua ânsia demora
e outros olhos de fogo queimam os meus.
Que a maravilha do momento por vir
me leve então em asas de falcão
aos céus de ouro explosivo
que fique apenas meio-vivo
uma parte lá, sem pressa de cair.
E cego me encontre esse desejo
se agora que mal vejo
é com certeza mais romance
que espero no fim do romance
terça-feira, 14 de junho de 2011
fumo. 06/2011
"A boca dela parece um pouco mais fina" era o que pensava exactamente naquele momento. Nada mais. O presente não era definido palas palavras que pronunciava, nem pelo espaço que rodeava ambos. Nem se recordava da última vez que haviam estado juntos; recordava-se sim, que não tinha sido uma situação nada agradável, pelo menos para ele. Mas já havia passado muito tempo; demasiado. Era uma outra mulher que tinha agora à sua frente, embora não a conseguisse definir. Ela mudara; ele mudara. E no entanto, eram os mesmos. Que bizarro... "Ã?" Ela leva mais um cigarro à boca. É o quarto ou o quinto. Quase que antevê o maço a meio antes de se despedirem. Ele às vezes tinha esse dom, o da premonição. Previra que as coisas iam correr mal; previra que ela lhe escondia coisas, talvez até com boas intenções; e previa agora que não se iam voltar a ver novamente durante bastante tempo. Não que lhe incomodasse muito; de facto, surpreendido como estava de como as coisas se transformaram em alguns meses - os hábitos mudados, as intimidades perdidas - principalmente considerando-se a vítima, tudo aquilo agora lhe cheirava a preocupações que não era suposto ter. Tal como o outro cigarro que puxa e que antes o irritava tanto. "Certas coisas mudam para o bem, outras para o mal e outras nunca mudam, apenas se mostram quando antes estavam ocultas, de vergonha ou medo" Lá por dentro questiona-se se as pessoas realmente não dão importância ao que têm de maior valor. Para ele, os avisos das caixas de tabaco são sérios. Tinha já perdido pessoas por causa de vícios. Mas tudo isso poderão ser paranóias de alguém sem vontade de viver, pelo menos na mente de alguns. Ele é tudo menos paranóico. É o sr. calmo; aquele que vive por gostar de viver e ver viver. Mas este momento actual não é isso. É um esforço sorrir. Como quem sorri para o seu assassino. "Mas não falaremos nisso. Não me quero aborrecer, nem a mim, nem a ti." Ele respeita-a demasiado, sem que ela o mereça, provavelmente. Ela não terá o mesmo sentimento. As coisas para ela passam. E como o fumo que desaparece a uma certa distância da sua boca, todo o ser dele também desaparecerá da vida dela com o devido tempo. Há fumo, mas não há fogo.
sábado, 7 de maio de 2011
identidade
sempre achei curioso o facto de algumas pessoas do nada ganharem um apelido, sem se casarem. parece que se lembram de repente que têm outro nome.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Nuvem 9. capítulo I
Já lá vão bastantes anos, mas sei-os de cor. Passaram exactamente trinta e quatro anos, seis meses e sete dias. Era um dia escuro, mesmo às doze horas da tarde. O bosque nessas alturas era uma visão de outro mundo, e a linha das árvores afigurava-se como que uma porta para outra dimensão, onde as regras dos homens não se aplicavam.
As crianças não se aproximavam do bosque. Acho que era na nossa aldeia o único sítio onde isso acontecia. Mas na verdade não parecia haver razão para isso. Que criança não se sente um pouco impelida mesmo face a tão primitivo receio? Mas era mais forte que a curiosidade. Nem me recordo se os meus pais até àquela altura já me proibiam de lá entrar ou se era apenas uma aura emanante daquelas copas que nos suscitava tal medo.
Só quando entrei para a escola descobri uma possível razão. Até então tinha passado praticamente toda a minha infância na minha aldeia, salvo uma deslocação a Fátima, por ocasião do acidente do meu irmão mais velho. A escola primária ficava a cerca de dez quilómetros, do outro lado do monte, sempre a subir, e curiosamente nunca lá tinha estado. Não gostava das pessoas de lá. Por altura das festas eram muito barulhentos e bebiam demasiado. Uma das vezes em que celebraram a Sra. dos Remédios na nossa aldeia, partiram a imagem da Santa e culparam a minha mãe.
Os meus pais nunca foram de deslocações e eu muito menos, até porque tinha de tomar conta dos mais pequenos. E foi não foi com pouca revolta que recebi a noticia no meu 5º aniversário, de que ainda nesse ano iria para a escola. Por essa altura indignava-me apenas com a ideia de escola. O que é que a escola pode ensinar a alguém de uma aldeia que sempre ficará numa aldeia? Mais tarde mudei de opinião enquanto me ensinavam a ler e a escrever, e a história da minha terra e do meu país. Lembro-me de que foi um momento interessante quando descobri que era natural a história repetir-se. Mas mais importante que as lições nas aulas são sem dúvida as lições com os colegas. E a mais preciosa para mim foi quando descobri que no meu bosque tinha havido uns anos antes um desastre.
Toda a gente da minha aldeia conhecia a Clotilde, da portela. Morava na casa mais afastada, mas raramente era vista. O seu marido tinha ido para França e por lá tinha ficado, suspeitava-se, com outra família. O que não sabíamos era que tinham tido um filho juntos e que esse filho tinha morrido. Aparentemente, num dia de chuva, o rapaz desaparecera. Tinha dito à mãe que ia à pesca mas quando no final desse dia a mãe, preocupada, desceu a encosta para o rio, só lá encontrou a sua cana e um ramo com três peixes espetados. Dez dias depois, com quatro dias de buscas completados, o corpo do rapaz foi encontrado no bosque, dentro de um poço. As crianças não sabiam o nome do rapaz, mas eu sabia que o apelido da Clotilde era Sereno, portanto na minha cabeça, dei-lhe o nome de Pequeno Sereno.
Não contei aos meus pais acerca do que tinha descoberto. Mas a partir desse dia, depois das aulas, sentava-me sempre na mesma pedra em frente à orla do bosque, tentando descortinar o que havia passado com o Pequeno. Conforme os anos passaram, deixei de dar tanta importância a isso, até porque tinha de ir ajudar os meus pais, agora que já tinha mais físico para a lavoura. Foi por volta dos meus onze anos que a nossa aldeia suportou uma nova mudança. Há muito que o Esteves do fundo do povo falava com orgulho da sua filha que morava em França. Porém, ninguém esperava que essa filha resolvesse deixar o marido e voltar para Portugal. Não se pense, no entanto, que voltava em dificuldades; aparentemente o Esteves falava verdade quando dizia que tinha tido sucesso no estrangeiro. Conseguira abrir uma empresa com outros empregados portugueses e estava bem na vida. Foi essa a razão porque pode trazer com ela os seus três filhos e, com eles, trouxe também mais um desastre à minha aldeia. Um ano depois, o mais velho dos três, Victor, estaria morto.
As crianças não se aproximavam do bosque. Acho que era na nossa aldeia o único sítio onde isso acontecia. Mas na verdade não parecia haver razão para isso. Que criança não se sente um pouco impelida mesmo face a tão primitivo receio? Mas era mais forte que a curiosidade. Nem me recordo se os meus pais até àquela altura já me proibiam de lá entrar ou se era apenas uma aura emanante daquelas copas que nos suscitava tal medo.
Só quando entrei para a escola descobri uma possível razão. Até então tinha passado praticamente toda a minha infância na minha aldeia, salvo uma deslocação a Fátima, por ocasião do acidente do meu irmão mais velho. A escola primária ficava a cerca de dez quilómetros, do outro lado do monte, sempre a subir, e curiosamente nunca lá tinha estado. Não gostava das pessoas de lá. Por altura das festas eram muito barulhentos e bebiam demasiado. Uma das vezes em que celebraram a Sra. dos Remédios na nossa aldeia, partiram a imagem da Santa e culparam a minha mãe.
Os meus pais nunca foram de deslocações e eu muito menos, até porque tinha de tomar conta dos mais pequenos. E foi não foi com pouca revolta que recebi a noticia no meu 5º aniversário, de que ainda nesse ano iria para a escola. Por essa altura indignava-me apenas com a ideia de escola. O que é que a escola pode ensinar a alguém de uma aldeia que sempre ficará numa aldeia? Mais tarde mudei de opinião enquanto me ensinavam a ler e a escrever, e a história da minha terra e do meu país. Lembro-me de que foi um momento interessante quando descobri que era natural a história repetir-se. Mas mais importante que as lições nas aulas são sem dúvida as lições com os colegas. E a mais preciosa para mim foi quando descobri que no meu bosque tinha havido uns anos antes um desastre.
Toda a gente da minha aldeia conhecia a Clotilde, da portela. Morava na casa mais afastada, mas raramente era vista. O seu marido tinha ido para França e por lá tinha ficado, suspeitava-se, com outra família. O que não sabíamos era que tinham tido um filho juntos e que esse filho tinha morrido. Aparentemente, num dia de chuva, o rapaz desaparecera. Tinha dito à mãe que ia à pesca mas quando no final desse dia a mãe, preocupada, desceu a encosta para o rio, só lá encontrou a sua cana e um ramo com três peixes espetados. Dez dias depois, com quatro dias de buscas completados, o corpo do rapaz foi encontrado no bosque, dentro de um poço. As crianças não sabiam o nome do rapaz, mas eu sabia que o apelido da Clotilde era Sereno, portanto na minha cabeça, dei-lhe o nome de Pequeno Sereno.
Não contei aos meus pais acerca do que tinha descoberto. Mas a partir desse dia, depois das aulas, sentava-me sempre na mesma pedra em frente à orla do bosque, tentando descortinar o que havia passado com o Pequeno. Conforme os anos passaram, deixei de dar tanta importância a isso, até porque tinha de ir ajudar os meus pais, agora que já tinha mais físico para a lavoura. Foi por volta dos meus onze anos que a nossa aldeia suportou uma nova mudança. Há muito que o Esteves do fundo do povo falava com orgulho da sua filha que morava em França. Porém, ninguém esperava que essa filha resolvesse deixar o marido e voltar para Portugal. Não se pense, no entanto, que voltava em dificuldades; aparentemente o Esteves falava verdade quando dizia que tinha tido sucesso no estrangeiro. Conseguira abrir uma empresa com outros empregados portugueses e estava bem na vida. Foi essa a razão porque pode trazer com ela os seus três filhos e, com eles, trouxe também mais um desastre à minha aldeia. Um ano depois, o mais velho dos três, Victor, estaria morto.
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