eles virão buscar-vos brevemente...

terça-feira, 5 de julho de 2011

naquele dia futuro

Naquele dia futuro em que apenas nuvens cobrem o céu
respiro uma flecha de sol
e já não sinto o cinto
que me amassa o peito, despedaça, estilhaça
mas hoje me estrangula
de amar para além da gula 
se em nós vejo para além do agora
quando a tua ânsia demora
e outros olhos de fogo queimam os meus.
Que a maravilha do momento por vir
me leve então em asas de falcão
aos céus de ouro explosivo
que fique apenas meio-vivo
uma parte lá, sem pressa de cair.
E cego me encontre esse desejo
se agora que mal vejo
é com certeza mais romance
que espero no fim do romance

terça-feira, 14 de junho de 2011

fumo. 06/2011

"A boca dela parece um pouco mais fina" era o que pensava exactamente naquele momento. Nada mais. O presente não era definido palas palavras que pronunciava, nem pelo espaço que rodeava ambos. Nem se recordava da última vez que haviam estado juntos; recordava-se sim, que não tinha sido uma situação nada agradável, pelo menos para ele. Mas já havia passado muito tempo; demasiado. Era uma outra mulher que tinha agora à sua frente, embora não a conseguisse definir. Ela mudara; ele mudara. E no entanto, eram os mesmos. Que bizarro... "Ã?" Ela leva mais um cigarro à boca. É o quarto ou o quinto. Quase que antevê o maço a meio antes de se despedirem. Ele às vezes tinha esse dom, o da premonição. Previra que as coisas iam correr mal; previra que ela lhe escondia coisas, talvez até com boas intenções; e previa agora que não se iam voltar a ver novamente durante bastante tempo. Não que lhe incomodasse muito; de facto, surpreendido como estava de como as coisas se transformaram em alguns meses - os hábitos mudados, as intimidades perdidas - principalmente considerando-se a vítima, tudo aquilo agora lhe cheirava a preocupações que não era suposto ter. Tal como o outro cigarro que puxa e que antes o irritava tanto. "Certas coisas mudam para o bem, outras para o mal e outras nunca mudam, apenas se mostram quando antes estavam ocultas, de vergonha ou medo" Lá por dentro questiona-se se as pessoas realmente não dão importância ao que têm de maior valor. Para ele, os avisos das caixas de tabaco são sérios. Tinha já perdido pessoas por causa de vícios. Mas tudo isso poderão ser paranóias de alguém sem vontade de viver, pelo menos na mente de alguns. Ele é tudo menos paranóico. É o sr. calmo; aquele que vive por gostar de viver e ver viver. Mas este momento actual não é isso. É um esforço sorrir. Como quem sorri para o seu assassino. "Mas não falaremos nisso. Não me quero aborrecer, nem a mim, nem a ti." Ele respeita-a demasiado, sem que ela o mereça, provavelmente. Ela não terá o mesmo sentimento. As coisas para ela passam. E como o fumo que desaparece a uma certa distância da sua boca, todo o ser dele também desaparecerá da vida dela com o devido tempo. Há fumo, mas não há fogo.

sábado, 7 de maio de 2011

identidade

sempre achei curioso o facto de algumas pessoas do nada ganharem um apelido, sem se casarem. parece que se lembram de repente que têm outro nome.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nuvem 9. capítulo I

Já lá vão bastantes anos, mas sei-os de cor. Passaram exactamente trinta e quatro anos, seis meses e sete dias. Era um dia escuro, mesmo às doze horas da tarde. O bosque nessas alturas era uma visão de outro mundo, e a linha das árvores afigurava-se como que uma porta para outra dimensão, onde as regras dos homens não se aplicavam.
As crianças não se aproximavam do bosque. Acho que era na nossa aldeia o único sítio onde isso acontecia. Mas na verdade não parecia haver razão para isso. Que criança não se sente um pouco impelida mesmo face a tão primitivo receio? Mas era mais forte que a curiosidade. Nem me recordo se os meus pais até àquela altura já me proibiam de lá entrar ou se era apenas uma aura emanante daquelas copas que nos suscitava tal medo.
Só quando entrei para a escola descobri uma possível razão. Até então tinha passado praticamente toda a minha infância na minha aldeia, salvo uma deslocação a Fátima, por ocasião do acidente do meu irmão mais velho. A escola primária ficava a cerca de dez quilómetros, do outro lado do monte, sempre a subir, e curiosamente nunca lá tinha estado. Não gostava das pessoas de lá. Por altura das festas eram muito barulhentos e bebiam demasiado. Uma das vezes em que celebraram a Sra. dos Remédios na nossa aldeia, partiram a imagem da Santa e culparam a minha mãe.
Os meus pais nunca foram de deslocações e eu muito menos, até porque tinha de tomar conta dos mais pequenos. E foi não foi com pouca revolta que recebi a noticia no meu 5º aniversário, de que ainda nesse ano iria para a escola. Por essa altura indignava-me apenas com a ideia de escola. O que é que a escola pode ensinar a alguém de uma aldeia que sempre ficará numa aldeia? Mais tarde mudei de opinião enquanto me ensinavam a ler e a escrever, e a história da minha terra e do meu país. Lembro-me de que foi um momento interessante quando descobri que era natural a história repetir-se. Mas mais importante que as lições nas aulas são sem dúvida as lições com os colegas. E a mais preciosa para mim foi quando descobri que no meu bosque tinha havido uns anos antes um desastre.
Toda a gente da minha aldeia conhecia a Clotilde, da portela. Morava na casa mais afastada, mas raramente era vista. O seu marido tinha ido para França e por lá tinha ficado, suspeitava-se, com outra família. O que não sabíamos era que tinham tido um filho juntos e que esse filho tinha morrido. Aparentemente, num dia de chuva, o rapaz desaparecera. Tinha dito à mãe que ia à pesca mas quando no final desse dia a mãe, preocupada, desceu a encosta para o rio, só lá encontrou a sua cana e um ramo com três peixes espetados. Dez dias depois, com quatro dias de buscas completados, o corpo do rapaz foi encontrado no bosque, dentro de um poço. As crianças não sabiam o nome do rapaz, mas eu sabia que o apelido da Clotilde era Sereno, portanto na minha cabeça, dei-lhe o nome de Pequeno Sereno.
Não contei aos meus pais acerca do que tinha descoberto. Mas a partir desse dia, depois das aulas, sentava-me sempre na mesma pedra em frente à orla do bosque, tentando descortinar o que havia passado com o Pequeno. Conforme os anos passaram, deixei de dar tanta importância a isso, até porque tinha de ir ajudar os meus pais, agora que já tinha mais físico para a lavoura. Foi por volta dos meus onze anos que a nossa aldeia suportou uma nova mudança. Há muito que o Esteves do fundo do povo falava com orgulho da sua filha que morava em França. Porém, ninguém esperava que essa filha resolvesse deixar o marido e voltar para Portugal. Não se pense, no entanto, que voltava em dificuldades; aparentemente o Esteves falava verdade quando dizia que tinha tido sucesso no estrangeiro. Conseguira abrir uma empresa com outros empregados portugueses e estava bem na vida. Foi essa a razão porque pode trazer com ela os seus três filhos e, com eles, trouxe também mais um desastre à minha aldeia. Um ano depois, o mais velho dos três, Victor, estaria morto.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cover us in chocolate, sell us to the neighbours, frame us on a video. 04/2011

Neste ponto da minha vida, é difícil saber o que fazer. É uma altura em que o tempo corre mais devagar, mas incidentalmente me sinto mais velho. É o momento de recuperação depois de um longo choque, é o momento do recomeço, do novo planeamento, da nova ideia de mim e dos outros, o tempo de repensar os meus sentimentos, olhando para trás, para construir o advir. Já é mais que tempo. Aliás, já me sinto assim há já algum tempo, mas parece que de cada vez que ultrapasso uma daquelas barreiras psicológicas, algo de exterior a mim acontece, como que brincando com as minhas vontades e os meus desejos e como que entro numa nova trincheira. Felizmente que tenho o meu trabalho, embora ele consista precisamente em pensar e muito sobre o que é verdadeiramente importante para mim. E para dizer a verdade, os dois projectos que tenho hoje em dia em mão, com o propósito de serem filmados, lidam com a ideia de verdade. O primeiro sobre alguém que receia ter de abdicar da sua genuinidade por descobrir que a sua mãe o quer conhecer e, na segunda, o protagonista é alguém que é constantemente usado para os caprichos de terceiros, até que as suas vontades são derrotadas pela sua própria natureza, demasiado influenciada pelas mentiras desses outros.

"...what in me is dark illumine, what is low raise and support..."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

sempre ao longe 04/2011

Era uma rapariga. Via-a ocasionalmente quando passava por mim; quando era pequeno, ainda lhe acenei uma ou outra vez, mas ela não ligava. Era difícil ter uma relação por muito mínima que seja com alguém que está sempre a correr. Era tudo o que ela fazia. Não a via comer, dormir, parar sequer. Suponho que ela fazia tudo isso, mas no primeiro dia em que resolvi segui-la nem isso consegui ver e como a minha mãe iria ficar preocupada caso não chegasse a tempo de jantar, desisti. Era uma rapariga bonita. Eu via os rapazes a olhar para ela. Tinha ciúmes, claro, mas sabia que nenhum deles a queria verdadeiramente; e mesmo que quisessem, não me parece que conseguissem impor a sua vontade para que ela deixasse de correr. E quem quer uma mulher que esteja sempre a correr? Uns anos mais tarde, quando já conduzia, resolvi seguir a mulher. Tentei falar com ela, mas também não me respondeu. Resolvi parar o carro e correr ao seu lado. Disse-me olá, como se apenas me tivesse visto agora. Não consegui parar de olhar para o seu sorriso. E depois apercebi-me de que nunca a tinha visto sem ser a sorrir. O único sorriso verdadeiro que vi em alguém. Perguntei-lhe porque é que corria, porque é que não parava um pouco. Porque ao correr estava feliz; se parasse não estava, portanto só quando estivesse sem forças é que pararia. Depois perguntei porque é que isso a punha feliz. Ela respondeu apenas que o sítio onde se está nos esgota, a felicidade está sempre à nossa frente, e por isso ela corria para ela. Numa última pergunta, quis saber porque é que se a felicidade está sempre na ida, porque é que ela ficava nestes anos todos sempre perto de casa. Ela olhou para mim e disse que estava à espera que alguém a acompanhasse. Fiquei sem forças e tive de parar; ela continuou. Nunca mais a vi, desde então, mas tenho corrido todos os dias para ganhar forças para ir atrás.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

xenomorfos no cinema português. 04/2011

Quando ninguém nos lê há uma liberdade inerente para resolver o que se quer exprimir. O problema é quando não se antevê qualquer assunto, ideia ou conceito que mereça sequer ser referido.
Agora que me lembro, esta noite já foi a segunda em que a meio do sono acordo com uma tosse irritante, daquelas que desce às profundezas dos pulmões e os põe a arder, em troca de alguma expectoração. Mas porque é que durante o dia esta situação está controlada e é precisamente à noite, a meio de um daqueles sonos REM que misturam voo com outras fantasias menos discutíveis, mais selvagens, que o meu organismo se lembra de convulsar? Lembro-me agora de que não sou fã de perguntas sem resposta, portanto se alguém souber efectivamente uma razão para tal fenómeno, por favor indique-me qual.
Outra coisa; já que não tenho assunto interior para abordar, para além dos meus já referidos pulmões, recordo-me de ontem ter visto o programa "Os culturistas" do canal Q com o convidado especial sendo nada mais nada menos que o realizador João Botelho. Admito que não entendo a irritação daquele senhor. Não falo sequer do facto de ser um programa que aborda a cultura com humor, mas apenas porque claramente a posição anti-entretenimento dele ser tão forte e intrínseca que é impossível sequer qualquer discussão. É frustrante pensar que há pessoas em Portugal que dizem que há vários tipos de cinema, que as pessoas têm a liberdade para fazerem o que quiserem, mas depois ataca uma possível corrente comercial em Portugal. É talvez o primeiro a dizer que o cinema nasce com o entretenimento e é claramente fã do cinema de Ford e de outros autores do cinema clássico americano, mas está tão fechado à ideia do cinema como arte e vanguarda modernista que parece não ver os seus próprios filmes e acha que por incluir técnicas de outras artes dentro do seu cinema, que o poderá fazer uma obra-prima além-fronteiras. O chiaroscuro, Sr. Botelho, está ultrapassado enquanto ponto de originalidade e por si só não vale nada. Veja o "Nightwatch" do Peter Greenaway e aprenda. Mas mais que tudo, aquilo que tem de aprender é alguma modéstia; todos sabemos que já passou por muito a lidar com pessoas horríveis e corruptas do cinema português, pessoas essas que deviam estar presas há muito tempo em vez de ganharem dinheiro para os jaguares e pó de "arroz". Mas o sonho de quem fala do cinema português enquanto marasmo é porque olha para o cinema dinamarquês, japonês e coreano e vê como possível uma ligação da arte com boa história e entretenimento e sim, sonha com uma pequena indústria que o senhor, com muita razão, diz não existir. Porquê tanta irritação? Eu acho que está irritado, porque se houvesse uma indústria auto-suficiente e o ICA deixasse de existir, havia muita gente que deixaria de fazer filmes. No entanto, se o que diz acerca dos filmes portugueses saírem e serem bem vistos lá fora com resultados é verdade, sem dúvida que continuariam a ser feitos.

Ai que agradável não seria que o João Botelho lesse isto.